Patologias da alvenaria devido ao não preenchimento das juntas verticais

Olá pessoal!

Gostaria de falar neste artigo sobre uma patologia apresentada por um membro do nosso grupo de whatsapp neste último final de semana. O aparecimento de umidade na parede de um apartamento já entregue, vinda do meio externo (fachada).


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Não fui autorizado a postar as fotos originais aqui no post, devido ao receio da construtora em se expor negativamente com o problema, por isso tive que cortar a imagem.


Qual a melhor opção para a junta dos blocos da alvenaria, preencher toda a junta vertical ou deixar sem preencher?

Existem vários estudos que recomendam para não fazer o preenchimento vertical do bloco, ou pelo menos não fazê-lo no momento do assentamento, se tratando em alvenaria estrutura, deixando para ser feito após a distribuição da carga nas paredes (concretagem da laje).

Segundo Ramirez-Vilato (2004) "entre as alterações de tecnologia ocorridas nos últimos anos está a técnica de não preenchimento da junta vertical de assentamento dos blocos (...). Nesse processo construtivo, essa técnica objetivava principalmente a redução da possibilidade de ocorrências de problemas patológicos causados por movimentações intrínsecas da alvenaria, de origem higroscópica ou térmica".

Entretanto, alguns fatores como resistência ao cisalhamento diminuída e menor isolação acústica devem ser levados em conta. Projetistas especializados em alvenaria estrutural recomendam o não preenchimento ou preenchimento posterior das juntas verticais para evitar patologias associadas à retração (Wendler, 2005).


Eu mesmo conheço projetistas e professores que já me orientaram a fazer isso. O motivo dessa recomendação, que vem muitas vezes no próprio projeto, é devido à perda de resistência com a retração da argamassa, para se evitar a movimentação da alvenaria.

Entretanto, essa verificação se faz necessária porque a NBR 8798 (1985), que trata sobre a execução de obras em alvenaria estrutural especifica a colocação de argamassa em todas as paredes dos blocos (argamassa plena) .

Alguns projetistas recomendam fazer o preenchimento vertical das juntas dos blocos, APÓS a laje já estar apoiada sobre as paredes recém-assentadas. Desta forma, os esforços provenientes do peso da laje, já estarão distribuídos nos prismas (união entre bloco/argamassa) das paredes, então a junta vertical já não interfere.


Tratando-se de alvenaria de vedação somente, na minha opinião, devemos preencher todos os vãos do bloco com a argamassa de assentamento. O preenchimento vertical das juntas dos blocos é chamado de “encabeçamento". “Encabeçar" o bloco inteiro com massa garante um melhor conforto térmico e acústico da parede. Tenho professores de pós-graduação que recomendam a execução da alvenaria de vedação com argamassa plena.


Voltando ao assunto principal, a patologia mencionada no grupo do whats app.


Quem já acompanhou uma parede externa sendo levantada, sabe muito bem que o pedreiro não capricha no arremate das juntas (tanto da limpeza quanto do preenchimento) do lado externo, da mesma forma que ele capricha no lado de dentro do apartamento. Talvez pelo fato de que, quem confere o serviço, seja o mestre de obras ou o encarregado, não vai enfiar o corpo pra fora da janela para checar o “encabeçamento" dos blocos, se foi feito 100% ou não.

Ainda mais em obras com o cronograma apertado, com 6, 7, 8 serviços acontecendo ao mesmo tempo. Os mestres e encarregados não conseguem conferir tudo.

O engenheiro da obra então, coitado, esse é o mais atarefado/enrolado. Com milhares de planilhas, medições, programações de materiais, planilhas de banco, projetos, contratações e etc., fica quase impossível ter um tempo para conferir qualidade de execução.

Nessa correria do dia-a-dia e a não conferência total pelos responsáveis da execução, alguns serviços são executados fora do padrão de qualidade e conformidade das empresas.

Descrição: C:\Users\User\Desktop\Construtor de Talento\Artigos do blog\Patologias alvenaria nao preenchimento do bloco\alvenaria sem junta vertical.jpg
Alvenaria sem preenchimento vertical.


Descrição: C:\Users\User\Desktop\Construtor de Talento\Artigos do blog\Patologias alvenaria nao preenchimento do bloco\alvenaria com junta vertical.jpg
Alvenaria 100% encabeçada. Sentiu a diferença?


Perguntaram-me no grupo: “Mas e o revestimento externo, não cobre essas falhas e buracos que ficam na alvenaria?".

Muitas vezes sim, mas, dependendo do tamanho dos buracos e da espessura do revestimento, a camada de reboco não é suficiente para bloquear a entrada de umidade proveniente de águas pluviais. Essa não é a função do revestimento, vedar a fachada, mas sim da alvenaria!



Veja essa foto que peguei da internet:





Dê uma olhada na quantidade de buracos que esse paredão tem.

Qual a probabilidade do pedreiro que irá executar o revestimento externo, arrumar esses buracos da maneira correta? Veja também, que não existe nenhuma junta vertical preenchida nessa parede da foto.

É claro que o pedreiro vai chapar massa em todo o “pano", sarrafear, desempenar e ir embora pro bar tomar umas no fim do dia! Se ele arrumar alguma coisa, será somente os buracos maiores.

Além disso, talvez o maior problema seja o da argamassa de revestimento que não está aderida em 100% sob um substrato (cuja junta vertical é inexistente e/ou existe um buraco ali), pode vir a fissurar futuramente. Neste caso, quanto maior a espessura do revestimento, maior é a probabilidade de fissurar.

Quando há a presença de uma série de erros como esses (não preenchimento das juntas; presença de buracos; revestimento não aderido 100% sob a parede, etc.), forma-se um “passivo patológico".

O que significa? Significa que tem grandes chances dessa patologia se manifestar no futuro, seja antes da entrega da obra ou mesmo depois. É muito provável que após uma forte chuva, a água infiltre na parede e procure um lugar para escoar lentamente.


Blocos cerâmicos isolam melhor a umidade e a temperatura que blocos de concreto


Mesmo com a pintura acrílica da fachada, o ponto crítico de entrada de umidade sempre vai ser aonde a alvenaria não foi bem preenchida e onde o revestimento não cobriu, vedando completamente.

E como consertar esse problema?

Você vai ter que alugar um balancim e descer externamente pra achar o ponto frágil de entrada de umidade, quebrar, revestir e pintar de novo? Talvez sim. Mas pode ser que talvez, somente uma selagem de trinca (que pode ter se formado onde a alvenaria não foi encabeçada) seja suficiente, depende do tamanho do problema que o pedreiro deixou, na fase da alvenaria.

O pintor desce na “cadeirinha", abre o local de infiltração e faz o tratamento com tela e selante acrílico, caso a trinca seja pequena.

Mas ressalto aqui, esse tratamento irá depender da análise feita no local, do tamanho da trinca, da quantidade de umidade que está infiltrando, etc.

Por isso é importante o gerenciamento da execução dos serviços pelo engenheiro da obra. Mesmo com milhares de funções e tarefas a serem cumpridas, o engenheiro precisa estabelecer uma rotina de visita à obra, periodicamente. De preferência, DIARIAMENTE, em horário pré-determinado.

Eu tenho o costume de andar na obra logo pela manhã. Não gosto muito de ler e-mails pela manhã (só vem problema), e de manhã o calor é menor. Pra encarar uma subida de escada do térreo ao 21° pavimento, é preferível que seja às 7... 8 da manhã do que às 14h, não é mesmo?

Aproveitando o artigo, gostaria de convidá-lo a se inscrever no nosso Workshop de Gerenciamento de edificações:

Segue o link: http://www.construtordetalento.com.br/primeiroworkshop

Nesse workshop vou falar um pouco sobre as técnicas de gerenciamento das grandes construtoras do Brasil e do exterior, para controle de cronograma, custo e qualidade. Você pode usar as mesmas técnicas em qualquer tipo de obra, seja uma reforma, quanto a construção de um prédio em Dubai.

Um grande abraço.
Wyllian Capucci