Reboco projetado e os benefícios da mecanização da construção civil

Atualmente, o Brasil vive um caos produtivo, tanto do ponto de vista da construção civil como em outros mercados. Segundo dados trazidos pelo economista Ricardo Amorim, um trabalhador norte americano executa o trabalho de cinco trabalhadores brasileiros.

Eu listo abaixo 3 motivos para nossa produtividade ser tão ruim.

1° motivo: O primeiro é devido à baixa educação no país, especialmente na construção civil, que emprega mão-de-obra, muitas vezes, sem aproveitamento e rejeitada em outras áreas de atividade.

2° motivo: O segundo motivo, é o baixo grau de automação, mecanização, controle e investimentos em software e hardware.

3° motivo: O terceiro motivo, é o excesso de burocracia e regulamentação governamental que atravancam o país. Isso reflete muito no nosso desempenho de execução.

Destes fatores, o terceiro, sabidamente, depende de outras pessoas envolvidas nos processos e devemos ver melhorias paulatinas, graduais e lentas.

A boa notícia é que os outros dois primeiros são contornáveis, agregando valor às empresas que tiverem processos otimizados e com melhorias constantes. Agora, como podemos ver essa otimização nos serviços de revestimento das nossas obras?

Começando pelo segundo motivo, a utilização de máquinas para reboco projetado vem aumentando a produtividade, consideravelmente, nos canteiros de obras brasileiros. É ponto pacífico que utilizar máquinas para fazer trabalhos repetitivos traz 2 conseqüências diretas e positivas:

1ª: A menor solicitação do trabalhador;

2ª: Mais rápida execução do serviço.

Isso acaba gerando um círculo virtuoso, onde trabalhadores com máquinas produzem mais pela atividade automatizada e tendem a produzir mais ainda por estarem menos cansado. Vejam este artigo sobre os métodos de administração científica de Taylor e Gilbreth.

Por fim, o primeiro ponto pela qual a adoção do reboco projetado vai ao encontro de uma maior produtividade é que o fato da baixa educação na mão-de-obra da construção civil fica atenuada, devido a adoção de procedimentos claros, semelhantes a uma linha de montagem, onde se diminui a possibilidade desvios da atividade.

Mas cuidado quando forem se submeter a executar este tipo de serviço ou contratar empresas para a execução do mesmo. Não é tão simples quanto parece e eu inclusive já tive experiências negativas com empresas que “se meteram" a fazer o serviço.

O histórico do reboco projetado no Brasil, data de pelo menos duas décadas atrás, mas por razões diversas, não é uma prática amplamente adotada. A principal razão é a dificuldade de formação de equipes especializadas na execução, pelo processo projetado.

Grande parte dos responsáveis pela execução de obra sabem que os processos de projeção de reboco funcionam, agregam valor à obra, mas não encontram justamente os profissionais aptos a tal atividade ou não tem tempo hábil de desenvolvê-los. Fator importante que contribuiu para este panorama foi a escassez de mão-de-obra (especializada ou não) durante o boom da construção civil (2009-2014).

É de conhecimento público que, com a diminuição da atividade da construção civil, ocorrida a partir da primeira metade de 2014, a oferta de mão-de-obra aumentou e a relativa produtividade tendeu a aumentar, pela escolha de profissionais mais qualificados a serem empregados.

Hoje, o grande desafio é o de retomar as atividades na construção civil, o que já vem acontecendo. Assim, neste ambiente de "seleção natural" de empresas, é fundamental a adoção de processos eficientes e procedimentos difundidos, de forma a agregar valor ao cliente e garantir a longevidade da empresa.

Voltando ao sistema de projeção, não citarei, no momento, marcas ou modelos de bombas, pois existem inúmeras no mercado,inclusive, eu tive a oportunidade de testar. A ideia deste blog não é fazer propaganda, mas sim orientar os leitores quanto às vantagens e desvantagens do sistema. Posso recomendar este equipamento para quem quiser entrar em contato por e-mail. Vocês também devem ficar atentos à argamassa utilizada nessas bombas. Não é qualquer material que sobe pela bomba. Existe todo um traço correto, utilização de aditivos, não utilização de areia grossa (danifica o rotor da bomba) e outros macetes, aos quais não iremos citar neste artigo.

O que vou falar aqui hoje é sobre o ganho de produtividade com o sistema projetado, comparando este com o sistema convencional, feito “na colher", e também as etapas de execução do sistema de reboco projetado.

Primeiramente, quando trabalhamos com sistema projetado, temos uma diminuição de mão-de-obra muito grande, referente ao transporte da argamassa. Imagine um prédio de 15 andares onde você tem que “bater" toda aquela massa na betoneira ou na argamassadeira e subir para a frente do serviço?

Um sistema de projeção pode bombear essa massa em questão de segundos, além disso, dá para se trabalhar (em ambos os casos) com uma argamassa industrializada, vinda de uma usina de concreto ou argamassa. São imensos os ganhos de qualidade com o material usinado, devido aos controles de qualidade (ISO 9001, etc.) que as usinas têm que manterem ativos, para poderem estar aptas a entregar este material. Compare essa qualidade com aquela massa batida na obra por aquele seu servente, sem instrução e sem nenhum padrão de controle de qualidade. Já começamos a ver os ganhos aí.

No que diz respeito à execução do serviço, existem alguns macetes que o engenheiro ou empreiteiro tem que levar em consideração para aumentar ainda mais a produtividade da projeção.

Etapas de produção:
- Preparação da superfície
- Execução das mestras
- Projeção
- Sarrafeamento
- Correção do sarrafeamento
- Alisamento

Com a utilização de mestras metálicas , fixadas na parede com parafuso e bucha, o pedreiro responsável pelo corte da argamassa (sarrafeamento) repousa a régua nos perfis e apenas levanta a ferramenta, utilizando as mestras como guia, para deixar a parede reta.

Os perfis são colocados a 1,50m um do outro e a 30-50cm da parede

Outro procedimento que aumenta ainda mais a produtividade e qualidade do serviço é a utilização de desempenadeira elétrica, diminuindo a possibilidade de falha no acabamento por parte do pedreiro. Eu pude ver os benefícios do acabamento da desempenadeira elétrica recentemente numa obra que estou executando.

Eu fiz um estudo sobre a utilização da desempenadeira elétrica numa obra que executei, e notei que a equipe de pintura economizou quase 30% de massa corrida nas paredes executadas com a desempenadeira elétrica, se comparadas com as paredes executadas com a desempenadeira comum. É um ganho bem expressivo que não é visto pelos engenheiros no momento da contratação.

O fator decisivo para se garantir uma maior produtividade das etapas, é a preparação das paredes antes de iniciar a projeção.

Eu tive a oportunidade de trabalhar recentemente com um empreiteiro de Curitiba que executa reboco projetado, e ele tem um método de trabalho muito legal. A equipe era dividida em 3 pequenas equipes, trabalhando de forma separada, mas em colaboração. Uma equipe gerando frente para a outra:

1ª equipe: A primeira equipe era formada por dois pedreiros, responsáveis pela projeção, ou enchimento da parede.

2ª equipe: A segunda, composta por dois trabalhadores, faziam o corte da argamassa, fechando onde ficavam vazios na parede e preenchendo com o material que sobra na régua.

3ª equipe: A terceira era a equipe de acabamento propriamente dita, o desempeno, composta por 4 trabalhadores. É necessário, neste processo, ficar atento à abertura de frente de serviço pelas equipes 1 e 2. O "taqueamento" ou “taliscamento" das paredes e a fixação dos perfis metálicos das mestras era fundamental para o desenvolvimento do trabalho e era executado por todas as 3 equipes antes de iniciar a projeção.

Eu lembro que este empreiteiro produzia diariamente, áreas de 300 a 400 m²! Com 8 pessoas!

Quando avaliamos a produtividade do reboco convencional através dos índices históricos de levantamento do RUP nas obras da minha construtora, temos uma média de 13 m² de reboco por pedreiro por dia. Pra produzir 400 m² precisaria de 30 pedreiros (sem contar os ajudantes para fornecer toda essa massa e também os equipamentos de transporte vertical para subir a argamassa, como cremalheira ou grua).

Segue abaixo um vídeo da execução dos serviços de revestimento projetado, porém, sem a utilização das mestras metálicas (apenas para vocês verem a velocidade de projeção):


O perfil utilizado para as mestras é o de 20x20x0,85mm (todas as medidas em milímetros)

Finalizo aqui este artigo, com a esperança que eu tenha conseguido implantar aquela “semente" da curiosidade em você leitor, para irmos em buscar do aumento do desempenho do nosso setor.

O ganho de produtividade gera maiores lucros, tanto para as empresas quanto para os funcionários, o que resulta em empreendimentos mais rápidos e mais baratos, que resulta em mais geração de emprego e futuros novos empreendimentos. É um círculo vicioso. Não tenha a mentalidade pequena de achar que a automatização do serviço gera desemprego, muito pelo contrário!

Espero que tenham gostado. Vamos voltar a falar mais sobre este e outros sistemas construtivos nos próximos artigos. O meu contato é: wyllian@construtordetalento.com.br

Um grande abraço e até semana que vem!